Lúpus eritematoso sistêmico: o que é, sintomas e tratamento.

parte de rosto de mulher com lúpus eritematoso sistêmico - Dr Marcelo Corrêa Reumatologista

O lúpus eritematoso sistêmico ou, simplesmente, lúpus, como também é conhecido, é uma doença inflamatória crônica e autoimune capaz de afetar várias partes do corpo. 

A doença age fazendo com que as células de defesa ataquem as células saudáveis provocando processos inflamatórios e pode levar à morte caso não seja tratada corretamente ou em situações graves.

O que causa o lúpus eritematoso sistêmico?

A causa para o lúpus é desconhecida, porém sabe-se que fatores, como a genética, os hormônios e o ambiente fazem parte de seu desenvolvimento.

As pessoas que nascem suscetíveis ao desenvolvimento do lúpus passam a apresentar alterações imunológicas após uma interação com fatores:

  • Hormonais;
  • Infecciosos;
  • Genéticos;
  • Ambientais.

A principal alteração imunológica apresentada é o desequilíbrio na produção de anticorpos, que passam a reagir com proteínas do próprio organismo e causar inflamações em diversos órgãos, como pele, pulmões, rins, articulações, entre outros.

Pode-se, então, compreender que o tipo de sintoma desenvolvido pelo portador vai depender do tipo de autoanticorpo que a pessoa tem, assim como entende-se também que cada pessoa tende a ter sintomas de lúpus específicos e pessoais.

De acordo com a ciência há alguns gatilhos capazes de desencadear o lúpus, sendo eles:

  • Exposição à luz solar de maneira inadequada, que pode dar início ou agravar uma inflamação preexistente ao desenvolvimento da lúpus;

  • Ter uma infecção pode contribuir para o surgimento ou recaída da doença, podendo gerar quadros leves ou graves, dependendo de cada situação;

  • O lúpus também pode estar relacionado ao uso de determinados antibióticos, a medicamentos usados no controle de convulsões e de pressão alta.
bochechas de mulher com manchas de lúpus eritematoso sistêmico

Quais são os primeiros sinais do lúpus eritematoso sistêmico?

Os primeiros sinais do lúpus eritematoso sistêmico são frequentemente inespecíficos e flutuantes, o que contribui para atrasos diagnósticos relevantes. A fadiga persistente é o sintoma inicial mais prevalente e não se trata de simples cansaço, mas sim de uma exaustão incapacitante que não melhora com o repouso. Febre baixa sem que haja uma causa evidente, alopecia difusa, artralgia, sendo com ou sem artrite, envolvendo, majoritariamente, pequenas articulações, além de erupções cutâneas fotossensíveis — em especial o eritema malar — são achados clínicos que podem surgir precocemente.

É importante reforçar que o acometimento renal pode ser silencioso em fases iniciais, sendo detectado apenas por alterações laboratoriais sutis, sobretudo proteinúria e hematúria. Na prática clínica, o reconhecimento conjunto dessas manifestações orienta adequadamente a suspeita diagnóstica e a indicação de investigação reumatológica precoce.

Quais são os sintomas da doença?

Os sintomas do lúpus são diversos, podendo surgir rapidamente ou se desenvolver de forma lenta, variando sua intensidade conforme a fase de atividade ou remissão da doença.

As manifestações clínicas mais freqüentes são:

  • Lesões de pele: ocorrem em cerca de 80% dos casos, ao longo da evolução da doença. As lesões mais características são manchas avermelhadas nas maçãs do rosto e dorso do nariz e que não deixam cicatriz.

  • As lesões discoides, que também ocorrem mais frequentemente em áreas expostas à luz, são bem delimitadas e podem deixar cicatrizes com atrofia e alterações na cor da pele. Na pele também pode ocorrer vasculite (inflamação de pequenos vasos), causando manchas vermelhas dolorosas em pontas dos dedos das mãos ou dos pés.

  • Há também a fotossensibilidade, que é o desenvolvimento de uma sensibilidade desproporcional à luz solar. Neste caso, com apenas um pouco de exposição ao sol, podem surgir manchas na pele e sintomas gerais (cansaço) ou febre.

  • A queda de cabelos é muito frequente, ocorrendo tipicamente nas fases de atividade da doença e, na maioria das pessoas, o cabelo volta a crescer normalmente com o tratamento;

  • Articulares: dores nas juntas, com ou sem inchaço, ocorrem em mais de 90% das pessoas com doenças reumáticas. As dores nas articulações das mãos, punhos, joelhos e pés tendem a ser intensas e ocorrem de forma intermitente, com períodos de melhora e piora.

  • A inflamação das membranas que recobrem o pulmão e coração são comuns e podem ser leves e assintomáticas ou se manifestar, como dor no peito. No caso do coração, a dor ocorre ao respirar, podendo causar tosse seca e falta de ar;

  • Inflamação nos rins: ocorre em cerca de 50% das pessoas com lúpus eritematoso sistêmico. No início pode não haver sintoma, apenas alterações nos exames de sangue e/ou urina. Nas condições mais graves a pessoa apresenta pressão alta, inchaço nas pernas, e a urina pode sofrer diminuição na quantidade, além de ficar espumosa. Quando não tratada rapidamente o rim deixa de funcionar (insuficiência renal) e o paciente pode precisar fazer diálise ou transplante renal.

  • Alterações neuro-psiquiátricas: essas manifestações são menos comuns, podendo causar convulsões, alterações de humor ou de comportamento, depressão e alterações dos nervos periféricos e da medula espinhal.

  • Sangue: as alterações nas células do sangue são devido aos anticorpos contra estas células, causando sua destruição.

O reconhecimento desse conjunto de sintomas, em vez de um único sinal isolado, é fundamental para que o paciente procure um reumatologista e inicie a investigação diagnóstica adequada para a condição.

Como saber se tenho lúpus eritematoso sistêmico?

O diagnóstico de lúpus não é tão simples pois os sintomas do lúpus podem variar muito de pessoa para pessoa além de mudar com o passar do tempo, podendo ser confundidos com sintomas de outras doenças.

Portanto, não há testes específicos capazes de diagnosticar a doença, porém há exames de sangue e urina que colaboram no diagnóstico, assim como os sintomas clínicos apresentados durante o exame físico.

Alguns exames úteis para diagnosticar o lúpus são:

  • Exame físico;
  • Exames de anticorpos, incluindo teste de anticorpos antinucleares;
  • Hemograma completo;
  • Radiografia do tórax;
  • Biópsia renal;
  • Exame de urina.

Como é uma crise de lúpus eritematoso sistêmico?

Uma crise de lúpus eritematoso sistêmico, também conhecida como flare, representa aumento mensurável da atividade inflamatória, com exacerbação de sintomas pré-existentes ou aparecimento de novas manifestações orgânicas. Uma crise exige manejo clínico ágil, pois mesmo períodos curtos de atividade intensa podem gerar dano irreversível. Durante um flare, fadiga intensa, febre persistente sem etiologia infecciosa, piora da artrite e reativação de lesões cutâneas são observações recorrentes. Em situações mais graves, o acometimento se estende para rins (nefrite lúpica com edema, hipertensão e alteração urinária), pleura ou pericárdio (serosite) e para o sistema nervoso central (cefaleias intensas, convulsões, alterações comportamentais). Estresse físico ou emocional, exposição solar inadequada, privação de sono e infecções virais são os principais gatilhos identificados. Protocolos personalizados de reconhecimento precoce de flare, firmados entre paciente e médico, tendem a reduzir dano cumulativo e perda de função orgânica.

Sintomas específicos por órgão

Dependendo do sistema afetado, a crise pode se manifestar de formas mais graves, como:

• Nefrite lúpica: piora da função renal, manifestada por inchaço (edema) nas pernas e na face, aumento da pressão arterial e urina espumosa.

• Serosite: dor no peito ao respirar (pleurite) ou dor cardíaca (pericardite), indicando inflamação das membranas que revestem os pulmões e o coração.

• Manifestações neuropsiquiátricas: dores de cabeça intensas, convulsões, alterações de humor ou psicose lúpica, embora menos comuns, representam formas graves de flare.

Fatores desencadeantes (triggers)

Embora as crises possam ser imprevisíveis, diversos fatores são conhecidos por atuar como gatilhos, incluindo:

• Estresse: tanto o emocional (divórcio, luto) quanto o físico (cirurgias, traumas, gravidez) podem desencadear uma crise.

• Exposição solar: a radiação ultravioleta é um potente gatilho para manifestações cutâneas e sistêmicas.

• Infecções: resfriados, gripes ou outras infecções virais e bacterianas podem sobrecarregar o sistema imunológico e precipitar um flare.

• Exaustão: a falta de sono e o excesso de atividade física contribuem para o aparecimento de crises.

É fundamental que o paciente com lúpus trabalhe em conjunto com o reumatologista para desenvolver um plano de manejo de crises. Esse plano deve detalhar os sintomas de alerta e as ações imediatas a serem tomadas — como o ajuste da medicação — para controlar o flare o mais rapidamente possível.

O papel da genética no lúpus eritematoso sistêmico

Embora a etiologia do lúpus eritematoso sistêmico não seja completamente elucidada, a literatura científica atual demonstra que há forte contribuição genética multifatorial. Não existe um único gene determinante: múltiplos loci já foram associados à suscetibilidade, especialmente genes relacionados ao MHC (como HLA-DR2 e HLA-DR3), genes do complemento (C1q, C2 e C4), genes ligados à via do interferon tipo I (STAT4, IRF5) e genes envolvidos na depuração de material nuclear. 

A genética, entretanto, não explica integralmente o risco. O fato de gêmeos monozigóticos terem concordância inferior a 50% reforça o papel preponderante de cofatores ambientais (infecções, radiação ultravioleta, tabagismo, fármacos) como gatilhos para a autoimunidade em indivíduos predispostos. Assim, o risco familiar é aumentado, mas não é determinístico, exigindo vigilância orientada e educação do paciente sobre fatores desencadeantes.

Como é feito o tratamento para lúpus?

O tratamento da doença é sintomático e busca controlar os sintomas, melhorando a qualidade de vida da pessoa, pois até o momento, lúpus não tem cura.

O tratamento deve ser indicado pelo médico, variando de acordo com cada caso, conforme os níveis de intensidade e agressividade da doença.

No caso da lúpus leve, alguns medicamentos indicados são:

  • Protetor solar para as lesões de pele;
  • Remédios anti-inflamatórios, que são usados quando o lúpus provoca sintomas como dor, inchaço ou febre;
  • Remédios antimaláricos, que ajudam a evitar o desenvolvimento dos sintomas de lúpus em alguns casos;
  • Remédios corticoides, que agem reduzindo a inflamação dos órgãos afetados;
  • Remédios imunossupressores, que são indicados para diminuir a ação do sistema imune e aliviar os sintomas.

Porém esses medicamentos apresentam efeitos secundários sérios, como infecções recorrentes e aumento do risco de câncer. Portanto, só devem ser usados nos casos mais graves.

É importante salientar que os medicamentos usados na forma grave da doença também podem apresentar efeitos colaterais graves, sendo necessário o monitoramento frequente e constante com um médico especialista em reumatologia.

Abordagem multidisciplinar no cuidado do lúpus eritematoso sistêmico

Por sua natureza multissistêmica, o lúpus eritematoso sistêmico demanda manejo coordenado entre diferentes especialidades. O reumatologista é o médico central e coordenador da equipe, responsável pelo diagnóstico, pela prescrição dos imunossupressores e corticoides e pelo monitoramento geral da atividade inflamatória. No entanto, a complexidade do LES demanda a colaboração de diversos outros profissionais, dependendo do quadro clínico específico de cada paciente.

O nefrologista atua de forma determinante em casos de nefrite, ajustando condutas conforme gravidade e progressão da lesão renal. Dermatologistas orientam o manejo de manifestações cutâneas, e cardiologistas participam na prevenção e detecção precoce de complicações cardíacas inflamatórias ou ateroscleróticas. Psicólogos e psiquiatras têm papel estratégico na condução de sintomas neuropsiquiátricos e na manutenção da saúde mental em doença crônica. Fisioterapeutas e nutricionistas complementam o cuidado com foco em funcionalidade, analgesia, controle da fadiga, redução de inflamação e educação de estilo de vida.

A comunicação efetiva entre esses profissionais reduz a fragmentação terapêutica, melhora adesão e favorece redução de dano cumulativo.

Quais cuidados devo tomar para aliviar os sintomas?

É de grande importância tomar alguns cuidados para aliviar os sintomas do lúpus eritematoso sistêmico, como o uso diário de protetor solar e a adoção de hábitos de vida bem mais saudáveis. Ter uma alimentação anti-inflamatória é fundamental na prevenção de aparecimento dos sintomas, podendo reduzir sua intensidade. O recomendado é aumentar o consumo de alimentos ricos em antioxidantes e ômega-3, como por exemplo:

  • Salmão;
  • Atum;
  • Chá verde; 
  • Alho;
  • Cebola; 
  • Brócolis; 
  • Abacate;
  • Tomate.

Ao apresentar sintomas parecidos com os da doença, procure ajuda médica para que haja o diagnóstico correto e seja iniciado o tratamento o mais rápido possível.

Efeitos do lúpus eritematoso sistêmico na vida de pacientes

Apesar do lúpus eritematoso sistêmico causar impactos a curto e longo prazo na vida dos pacientes, seus efeitos são mitigados com um diagnóstico rápido. Assim como ocorre com outras condições reumáticas, como artrite reumatoide e esclerose sistêmica, o lúpus é bastante limitante. Seus sintomas e complicações limitam a funcionalidade social, física e mental do indivíduo. 

Uma das complicações que mais gera dificuldades em pacientes diagnosticados com a condição é a fadiga. Isso prejudica a qualidade de vida, impedindo que o paciente consiga manter-se em um emprego regular ou ter uma vida social ativa. 

O sintoma permanece, mesmo durante o tratamento, mas o acompanhamento médico ajuda a garantir melhores níveis de atividade. Por isso, as consultas de rotina para avaliar sintomas e efeitos dos medicamentos usados são tão importantes. 

Impacto psicológico e social do lúpus eritematoso sistêmico

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença que transcende o sofrimento físico, impondo um significativo fardo psicológico e social aos pacientes. A natureza crônica, imprevisível e multissistêmica da doença cria um ciclo de incerteza e estresse que afeta profundamente a saúde mental e a qualidade de vida.

Desafios psicológicos: depressão e ansiedade no lúpus eritematoso sistêmico

Manifestações neuropsiquiátricas são comuns no lúpus eritematoso sistêmico, sendo a depressão e a ansiedade as comorbidades mais frequentes. A depressão pode ser uma reação à cronicidade da doença, à dor constante e à perda de funcionalidade, mas também pode ser uma manifestação direta da atividade lúpica no sistema nervoso central (lúpus neuropsiquiátrico) ou um efeito colateral do uso de corticosteroides.

A ansiedade é frequentemente desencadeada pela imprevisibilidade dos flares (crises) e pelo medo constante de danos orgânicos permanentes, como a insuficiência renal ou o acidente vascular cerebral. A insatisfação com a autoimagem, causada por sequelas estéticas como a perda de cabelo ou as lesões cutâneas, também contribui para o estresse psicológico.

Impacto na qualidade de vida e no social

A qualidade de vida dos pacientes com lúpus é consistentemente relatada como pior em comparação com a população geral. Os domínios mais afetados são o físico e o psicológico, devido à presença constante de sintomas debilitantes como a fadiga crônica e a dor articular.

O impacto social da condição manifesta-se em diversas áreas:

•Vida profissional: a fadiga e a dor podem levar à redução da produtividade, faltas frequentes e, em casos graves, à perda do emprego ou à aposentadoria precoce.

•Relacionamentos: a dificuldade em manter o ritmo social e a necessidade de repouso podem levar ao isolamento social e a tensões nos relacionamentos familiares e conjugais.

•Estigma: a falta de conhecimento sobre a doença e as manifestações visíveis (como as lesões de pele) podem gerar estigma e preconceito.

O acompanhamento psicológico e psiquiátrico, como parte da abordagem multidisciplinar, é fundamental para ajudar o paciente a desenvolver estratégias de enfrentamento, melhorar a adesão ao tratamento e, consequentemente, a qualidade de vida.

Lúpus eritematoso sistêmico e síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAF)

A associação entre o lúpus eritematoso sistêmico (LES) e a Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF) é uma das comorbidades mais importantes e graves na reumatologia. A SAF é uma doença autoimune caracterizada pela presença persistente de anticorpos antifosfolípides (aFL) no sangue, que predispõem o paciente a eventos trombóticos (formação de coágulos) arteriais e venosos, além de complicações obstétricas, como abortos de repetição e partos prematuros. A SAF pode ocorrer de forma isolada (SAF primária) ou em associação com outras doenças autoimunes, sendo o lúpus a mais frequente. Estima-se que entre 20% e 40% dos pacientes com LES apresentem os anticorpos antifosfolípides, e uma parcela significativa desses pacientes desenvolverá a SAF secundária ao lúpus ao longo do acompanhamento.

Implicações da associação LES-SAF

A coexistência da SAF com o lúpus (LES-SAF) traduz-se em uma condição mais grave e com pior prognóstico. Pacientes com essa associação tendem a apresentar manifestações mais intensas e frequentes da doença, incluindo:

•Acometimento renal: maior risco de nefrite lúpica grave.

•Envolvimento neurológico: maior incidência de acidentes vasculares cerebrais (AVC) e outras manifestações neuropsiquiátricas.

Complicações cardíacas: maior risco de valvopatias e aterosclerose acelerada.

O diagnóstico da SAF é feito pela combinação de critérios clínicos (trombose ou complicações obstétricas) e laboratoriais (presença persistente de aFL, como o anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I).

Tratamento e manejo

O tratamento da SAF em pacientes com lúpus é complexo e exige uma abordagem dupla:

• Controle da atividade lúpica: uso de imunossupressores e corticoides para manter o LES em remissão.

• Terapia antitrombótica: uso de medicamentos para prevenir a formação de coágulos. Para pacientes que já tiveram trombose, o tratamento de longo prazo envolve anticoagulantes orais (como a varfarina). Para pacientes com SAF e histórico de perdas fetais, a combinação de aspirina em baixa dose e heparina durante a gestação é o protocolo padrão.

A triagem e o monitoramento rigoroso dos anticorpos antifosfolípides são essenciais para a condução clínica e para garantir o melhor prognóstico e qualidade de vida para esses pacientes.

Quais os 4 tipos de lúpus?

Sabia que o lúpus é classificado de acordo com seus sintomas, manifestações e partes do corpo atingidas? O diagnóstico correto de cada um dos tipos ajuda a manter um tratamento mais eficaz e levar melhor qualidade de vida ao paciente. Descubra quais são os quatro tipos da doença mais comuns. 

rosto de mulher com lúpus eritematoso sistêmico

1. Sistêmico 

O lúpus do tipo sistêmico ocorre quando a doença afeta diversos órgãos do organismo de forma aguda ou crônica. Por isso, seus sinais e sintomas são bastante variados, podendo incluir: 

  • Irritações na pele; 
  • Dor ou inchaço das articulações (artrites); 
  • Inchaço nos pés ou ao redor dos olhos, quando existem problemas renais envolvidos; 
  • Fadiga extrema; 
  • Febre baixa. 

A doença pode atingir uma série de órgãos ao mesmo tempo, causando: 

  • Inflamação dos rins: afeta a habilidade do corpo de filtrar o sangue. Em casos mais graves, o paciente pode precisar de diálise ou transplante renal; 

  • Danos às artérias: o paciente desenvolve doença arterial coronariana, que causa endurecimento das parede das artérias e aumenta as chances de um ataque cardíaco; 

  • Inflamação dos vasos sanguíneos no cérebro: causa febre alta, espasmos e mudanças comportamentais; 

  • Inflamações na pele: causa erupções cutâneas e úlceras na pele. É um sintomas bastante comum que afeta cerca de metade dos pacientes com esse tipo de lúpus. 

2. Medicamentoso

Ao contrário do tipo sistêmico, o lúpus medicamentoso não é uma condição crônica. Ele surge como um tipo de “efeito colateral” de certos tipos de remédios, como aqueles para: 

  • Hipertensão; 
  • Arritmia cardíaca; 
  • Tuberculose. 

É importante saber que nem todos que tomam esses remédios chegam a desenvolver lúpus. Somente alguns pacientes com predisposição sofrem com sintomas. Homens costumam ser mais afetados por receberem essas drogas com maior frequência. 

Em geral, os sintomas do lúpus medicamentoso demoram meses de tratamento contínuo ou até anos para surgirem. Após o diagnóstico, o paciente deve parar de tomar os medicamentos e pode demorar até seis meses para perceber melhora. 

Os principais sinais da condição incluem: 

  • Dor muscular e articular, algumas vezes acompanhada de inchaço; 
  • Fadiga e febre baixa; 
  • Inflamação nos pulmões ou coração; 
  • Anormalidades em testes laboratoriais.

3. Cutâneo

O lúpus cutâneo é aquele onde o paciente desenvolve somente sintomas na pele, como irritações e úlceras. Geralmente, os sintomas surgem em áreas mais expostas ao sol, incluindo: 

  • Rosto; 
  • Orelhas; 
  • Pescoço; 
  • Pernas. 

Para conseguir confirmar o diagnóstico da doença, é preciso realizar uma biópsia da lesão. Só assim podemos confirmar se o paciente sofre de lúpus ou de outros problemas que causam sintomas similares. 

É importante que o paciente procure um especialista para tratar as lesões, já que elas podem causar cicatrizes e marcas permanentes. 

4. Neonatal

O lúpus neonatal não é, na realidade, uma doença reumática. Ele é uma doença rara que surge por causa da incompatibilidade sanguínea entre bebê e mãe, que causa: 

  • Lesões na pele; 
  • Problemas hepáticos; 
  • Baixa contagem de células sanguíneas; 
  • Problemas cardíacos. 

Em geral, os sintomas desaparecem nos primeiros seis meses de vida sem precisar de tratamento. No entanto, é recomendado manter o acompanhamento médico para evitar complicações decorrentes da doença. 

Durante o pré-Natal, médicos conseguem identificar crianças com risco de nascer com a condição. Assim, é possível iniciar o tratamento rapidamente.

mulher se exercitando contra lúpus eritematoso sistêmico

Monitoramento e prevenção da nefrite lúpica no lúpus eritematoso sistêmico

A nefrite lúpica é uma das complicações mais relevantes do lúpus eritematoso sistêmico, com impacto direto em morbidade e sobrevida. Metade dos pacientes adultos apresentam algum grau de acometimento renal ao longo da evolução. A principal dificuldade é que o início pode ser assintomático, sendo reconhecido apenas em exames. A rotina de acompanhamento inclui urina I, relação proteína/creatinina, creatinina sérica e taxa de filtração glomerular, dosagem de complemento (C3 e C4) e anticorpos anti-dsDNA. A biópsia renal permanece o padrão-ouro na classificação histológica e direciona adequação de imunossupressores. Em termos preventivos, o controle rigoroso da atividade inflamatória sistêmica, a utilização contínua de hidroxicloroquina, o controle da pressão arterial e da glicemia, a fotoproteção e a adesão terapêutica são os pilares na redução do risco de dano renal permanente.

Novas abordagens e terapias-alvo no tratamento do lúpus eritematoso sistêmico

O tratamento do lúpus eritematoso sistêmico (LES) tradicionalmente se baseia no uso de antimaláricos, corticoides e imunossupressores. No entanto, o avanço da biotecnologia e o maior entendimento da patogênese da doença têm levado ao desenvolvimento de terapias-alvo que representam uma nova era no manejo da condição. Essas novas abordagens buscam modular o sistema imunológico de forma mais específica, visando moléculas ou células-chave envolvidas no processo autoimune, o que resulta em maior eficácia e menor toxicidade em comparação com os tratamentos convencionais.

Terapias biológicas aprovadas

As terapias biológicas são medicamentos produzidos por meio de engenharia genética que agem de forma direcionada. Dois medicamentos biológicos já foram incorporados ao rol de coberturas obrigatórias no Brasil para o tratamento do lúpus:

• Belimumabe: este anticorpo monoclonal inibe o estimulador de linfócitos B (BLyS), uma proteína que contribui para a sobrevivência e ativação dos linfócitos B, que produzem os autoanticorpos característicos da doença.

• Anifrolumabe: é um anticorpo monoclonal que atua bloqueando o receptor do interferon tipo I (IFNAR). O interferon tipo I é uma citocina que desempenha um papel central na inflamação do LES. O bloqueio desse receptor demonstrou reduzir a atividade da doença em diversos sistemas orgânicos.

Terapias em estudo para o lúpus eritematoso sistêmico

A pesquisa sobre lúpus eritematoso sistêmico continua ativa, com o objetivo de encontrar tratamentos ainda mais eficazes para a condição. Entre as terapias em fase de estudo, destacam-se:

•Inibidores de JAK (Janus Kinase): medicamentos como o deucravacitinibe, que agem inibindo enzimas envolvidas na sinalização de citocinas inflamatórias, têm demonstrado resultados promissores no controle das manifestações do LES.

•Terapias celulares: embora ainda em fase experimental, a terapia com células T CAR (Chimeric Antigen Receptor) tem sido explorada como uma abordagem potencialmente curativa, visando a eliminação seletiva dos linfócitos B autorreativos.

Esses avanços oferecem novas esperanças para pacientes com lúpus eritematoso sistêmico que não respondem adequadamente aos tratamentos convencionais, permitindo um controle mais preciso da doença e uma melhoria significativa na qualidade de vida.

Dúvidas comuns sobre lúpus eritematoso sistêmico 

Por ser uma doença pouco conhecida, pacientes recebem o diagnóstico de lúpus com muitas dúvidas. Respondemos as mais comuns abaixo!

1. Mulheres com lúpus eritematoso sistêmico podem engravidar? 

Sim! A maior parte das mulheres diagnosticadas com lúpus eritematoso sistêmico e que estão em tratamento podem engravidar normalmente e conseguem seguir até o final da gestação. Mulheres nessa condição são consideradas como um grupo de alto risco e precisam de acompanhamento ainda mais cuidadoso. 

Antes de começarem a tentar engravidar, futuras mamães portadoras de lúpus precisam garantir que a doença esteja em remissão há pelo menos seis meses. Engravidar enquanto a condição possui sintomas ativos aumenta muito as chances de aborto espontâneo e coloca a saúde da mãe em risco. 

O ideal é procurar um médico para orientar a mulher a respeito dos exames que deve realizar antes da gestação. Tudo para garantir que a gestação ocorra com a maior segurança possível. 

2. Quais são os fatores de risco para esse tipo de lúpus 

Apesar do lúpus poder afetar pessoas de todas as idades, incluindo crianças e adolescentes, os maiores grupo de risco são: 

  • Mulheres entre 15 e 44 anos; 
  • Público geral entre 20 e 40 anos;
  • Pacientes com outros quadros autoimunes ou reumatológicos. 

Esses grupos de risco nem sempre chegam a desenvolver a doença. Fatores ambientais também podem estar envolvidos na condição, gerando alterações que levam os anticorpos a interagirem de maneira errada e a atacarem o próprio corpo. 

3. Lúpus eritematoso sistêmico é hereditário? 

Ainda não existem evidências que provem com certeza que lúpus eritematoso sistêmico seja hereditário. Boa parte dos pacientes diagnosticados não possuem histórico familiar, levando especialistas a acreditar que outros fatores de risco, além da genética, estão envolvidos. 

Mesmo assim, existe uma pequena proporção de pessoas que desenvolvem a doença e também possuem familiares portadores de lúpus. A probabilidade do surgimento do lúpus nesses casos é um pouco maior que a do público geral. 

4. A doença é muito comum? 

O lúpus não é uma doença comum, com cerca de 200 mil pacientes diagnosticados somente no Brasil. Mesmo assim, é considerado como um problema reumatológico importante, já que é uma das doenças autoimunes mais graves quando não tratada. Sua forma mais grave, o lúpus eritematoso sistêmico, afeta cerca de 70% das pessoas com a condição. 

5. Lúpus leva a óbito? 

prevalência de morte prematura é maior em pacientes diagnosticados com lúpus, principalmente quando associado a outras doenças. Alguns indivíduos desenvolvem aterosclerose e outras doenças cardíacas. É importante lembrar que muitos desses problemas podem ser prevenidos com o tratamento correto.

Apesar de ser uma condição complexa, o cenário atual é mais otimista do que nunca. A evolução dos medicamentos, o avanço das terapias-alvo, o acesso mais rápido a especialistas, o reconhecimento precoce de flares e a educação do paciente mudaram completamente o desfecho clínico. A chave, no entanto, está no acompanhamento constante, na adesão rigorosa ao tratamento e na capacidade de identificar gatilhos antes que eles gerem dano orgânico.

Há algo poderoso em pacientes que entendem a própria doença: eles não apenas tratam sintomas, eles se antecipam, se protegem e preservam sua qualidade de vida. Essa autonomia não é luxo: é estratégia terapêutica. Mais do que nunca, não se trata apenas de “sobreviver”, mas de viver com dignidade, propósito e estabilidade funcional.

 Quem apresenta sinais suspeitos precisa procurar avaliação profissional, sem normalizar fadiga crônica, febre recorrente ou dor articular persistente. Quanto mais cedo se cuida, melhor o resultado ao longo do tempo. 

Informação, disciplina e suporte especializado não eliminam a condição, mas reduzem seu impacto e permitem que cada pessoa construa uma vida possível dentro dos seus limites. Essa é a verdadeira virada: não é negar a doença, é aprender a não ser definido por ela.

O Dr. Marcelo Corrêa é formado pela UFPA, com residência em Clínica Médica pela Universidade de Taubaté e em Reumatologia pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina e Mestrado em Reumatologia pela mesma instituição. CRM/PA 6388. RQE 5441.

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